Histórias de um Beque Central
Numa oportunidade escrevi algo sobre o vocabulário de meu pai. Trazia algumas expressões usadas pelo mesmo, as quais, sempre recheiam suas histórias. Pai, meu pai, é na verdade um contador de histórias, vibra, sorri, fica sério, faz trejeitos no rosto, arregala os olhos, coloca o dedo em riste, tudo isto para dar entonação, além de tentar colocar os ouvintes dentro de suas histórias. Sua forma de falar e expressar, é um número a parte. Então, como um apreciador de relatos, quando tenho chance não perco a oportunidade de parar para ouvi-lo e também gracejar com suas façanhas e seu vocabulário. Daí decidi hoje trazer algumas de suas peripécias, especialmente quando jogava futebol na posição de zagueiro central, o famoso camisa número três que ele gosta de chamar de: Bequi Centrá ou Centre Ralfi (seria Centre Ralff).
Sali “o fenômeno”.
Por motivos que até hoje não se sabe, mas que deixou um profundo sentimento de aversão, depois de defender as cores alvinegras do Treze, o Galo da Borborema, pai foi contratado pelo também tradicional Ipiranga Futebol Clube, adversário do clube galista. Defendendo as cores alvirrubras da equipe do canal, o zagueiro central aguardava com ansiedade a partida contra seu ex-clube, era uma espécie de desforra. Do lado de lá, reforçando o plantel, o Treze trouxe um atacante de renome com passagem pelos principais estados do Nordeste e que chegava a Campina Grande com fama de goleador. Tratava-se do centroavante de nome Sales, a quem meu pai fantasticamente chamava de:
Corria a boca miúda na cidade que o Treze tinha trazido um tal de “Sali”, um atacante que diziam que ia encher a defesa do time do Ipiranga de gols. Pois bem, a partida aconteceu num dia de domingo, mal o apito foi trilado e lançaram uma bola para o atacante do Treze em cima da defesa do Ipiranga. A bola após viajar pelo alto quicou na intermediária e veio cair próximo ao zagueiro, que como todo bom defensor correu para se antecipar ao lance. Quando a pelota chegou a meia altura, mais ou menos na linha do tórax, “Sali” partiu e mergulhou de cabeça para tentar desviar a esfera da linha do zagueiro. O detalhe é que ele não esperava com o que estaria por vir. O beque firmou-se numa perna e com a outra como se fosse uma raquete, girou e rebateu o balão de couro, literalmente deu uma raquetada no rosto da bola toda a força. “Sali” vendo um pé indo em direção ao seu rosto, imediatamente, no meio do caminho mudou sua trajetória, abaixou-se e passou pelo único local que sobrava, passou por debaixo das pernas do zagueiro indo cair depois de suas costas. Um meio campista da equipe do Galo gritou para Genival:
- Você ta ficando louco! Quase arranca a cabeça do outro.
- Achou Ruin! Retrucou o zagueiro. Escuta aqui, se achou ruim venha pra cá que eu piso no seu “gaiguelo” (goela), e se ele vier de novo vou pisar também. E deixe de falar bestera!
A partida continuou e o centroavante sensação não se aproximou mais da área, fugiu literalmente da presença do Beque Central.
O garoto
O racha se desenrolava num campo de pelada próximo. Genival jogava de um lado, e do outro, seu filho mais velho, Zezinho. Tudo corria muito bem, cada equipe tentava chegar ao gol, mas sem sucesso. Porém, em dado momento, o garoto Zezinho resolveu decidir a parada. Pegou a pelota e saiu driblando um e outro, na linguagem futebolística diria que saiu costurando o time adversário, mas, ao chegar na entrada da área deu de cara com o último homem da defesa, seu pai que sem esperar o próximo gingado do garoto, estirou a perna e passou-lhe o rapa, deu-lhe uma traulitada, a velha e certeira rasteira no meio das pernas fazendo o menino perder o controle da bola e cair prum lado agonizando agarrado nas canelas. O viril zagueiro pegou a bola e saiu jogado. Sob olhares atônitos de quem assistia e dos atletas do time adversário, no meio do entrevero alguém gritou: “Ele faz isso com o filho, imagine com os outros!” O anônimo mal terminara a frase e escutou de volta: “Aqui quem manda sou eu, e também num sô muito chegado a caqueado” (ginga)!
Jogo contra o G. O.
Certa vez jogando contra o time do Grupamento de Obuses, uma unidade do Exército, o zagueiro jogou tanta bola, que ao final um dos oficiais o procurou para dizer:
- Garoto, o futebol que você joga num é pra aqui, não. Um futebol como este é para ser jogado no sul do país. Tá todo mundo encantado com o seu estilo de jogo.
Acredito que neste jogo pai resolveu deixar de lado a caixa de ferramentas e saiu exibindo classe e categoria, arrancando elogios e olhares observadores dos oficiais do Exército.
Teónilo ou “Tionilo”
Um dos mais viris zagueiros que já pisara na Paraíba, um tal de “Teonilo”, o homem era de uma crueldade tal quando jogava bola, que os times pernambucanos o mandaram embora. Foi expulso de Pernambuco. Então, esta figura um dia cruzou seu caminho com o jovem Genival jogando lado a lado. Certa vez, após terminar o primeiro tempo, o experiente defensor chamou o jovem zagueiro e deu-lhe o seguinte “conselho”:
- Garoto, você joga muita bola, mas tem um grande defeito.
Sem imaginar o que era, Genival ficou aguardando a continuação.
- Quando levar uma pancada. Disse o zagueiro mais velho. Não espere o adversário voltar para descontar. Pegue o primeiro da frente e desça-lhe a butina. Rasgue logo o primeiro que passar, e quando perguntar porque você bateu, diga que vá tomar as dores com seu companheiro que lhe deu uma.
Dito e feito. Iniciou o segundo tempo e numa bola na entrada da área ao sair para cortar a jogada, Genival sentiu uma “triscada” na perna, virou para trás e não tinha mais ninguém. Na seqüência da jogada, um adversário qualquer tentava dar continuidade ao ataque, quando foi literalmente riscado na altura da coxa. A bola foi rebatida e a “vítima” veio tomar satisfação com o zagueiro que sem nenhum remorso disse: “Vá tomar satisfação com seu companheiro, aquele ali. Olhe o que fez na minha perna”. Daí em diante, Genival fez escola.
Nequinho/Nequim.
Não sei o seu nome original, acredito que devia ser Manoel, talvez pela estatura colocaram-lhe este pseudo. Jogava no ataque, mas precisamente na ponta. Ágil, rápido, um velocista que depois de empurrar a bola na frente do adversário, segundo meu pai, só era parado no “pau”. Num dos confrontos futebolísticos domingueiros, mais uma vez o Treze seria o adversário do time do zagueiro Genival. Do outro lado, Nequinho, famoso pela velocidade, era o “bicho”. Marcado de cima, não davam-lhe sossego, mas, mesmo assim, levava perigo para a defensiva contrária. Em dado momento da partida surgiu uma próximo ao meio campo, os atacantes alvinegros se posicionaram, e Nequim, oportunista, caiu pelo meio sendo marcado pelo beque Genival. Então, o encarregado da cobrança olhou e lançou a bola em direção a Nequinho, metros a frente dele e de seu marcador. Quando o ponta pensou em arrancar na velocidade, sentiu que um de seus pés ficara preso no chão. A bola vindo em sua direção e nada dele conseguir sair do lugar. Quando tentou mais uma vez, eis que o zagueiro jogou o braço a sua frente, dando a impressão de que queria correr mas estava sendo puxado. Para quem olhava de fora, como também o árbitro a impressão era de que o defensor estava sendo agarrado pelo uniforme. Mas, era o contrário. O zagueiro metera um pisão no pé do atacante de forma tal que o mesmo ficou imóvel com o pé preso debaixo do dele. A bola passou chegou até a área e foi recolhida pelo goleiro. Em seguida, a marcação fora desfeita e Nequinho saiu mancando e esbravejando palavras tipo: “fdp, fdp, você é um fdp”. Bem próximo dali, outro adversário que atendia pela alcunha de Biu Pu.. Preta, gritou: “Você é muito malvado, seu fdp”. Sem deixar se abalar o defensor devolveu: “Aqui é assim! Pensa que é só chegar e passar! É não! Vai comer medido”! Vocês vão ver o cancão piar agora.
Biu Pernão
Nome de batismo, Severino. Recebeu este apelido pela estatura, quase dois metros de altura e das longas pernas. Jogava na lateral-esquerda, detentor de muita classe e tranquilidade dentro das quatro linhas. Seu Biu, quando o conheci não jogava mais futebol, casado, um homem crente, íntegro, foi um exemplo na minha infância/juventude. Certa vez ao encontrá-lo perguntei se alguma vez jogara contra meu pai. Ele disse:
“Seu pai jogava muita bola, quando era classe sabia fazer. Mas quando queria bater era muito bruto. Seu pai era muito bruto! Uma vez jogando contra seu time, peguei uma bola pelo lado esquerdo de campo e avancei em direção ao ataque correndo próximo a linha lateral. Quando me dei conta vi que Seu Genival saíra para obstruir a jogada. Porém, como sabia que ele não dava viagem perdida, me preparei: seria eu ou a bola. No momento que se aproximou, dei um tapa na bola dum lado e corri pelo outro. Mas qual nada, vendo ele que o drible o tirara do alcance da esfera, ele partiu pra cima de mim. Literalmente tive que fazer um arrodeio por fora do campo para fugir da butinada que vinha em minha direção, mas, apesar de todo esforço, sua chuteira ainda riscou a parte posterior de minha coxa. A bola adiantou e perdi o lance. A partir dali não ousei mais levar o jogo para o lado onde atuava.”
Genivá, Ferrin ou Danilo, assim eras conhecido nas hostes futebolísticas da Rainha da Borborema. Zagueiro de muito vigor, muita força e determinação que fazia tremer o mais temido atacante adversário, jogando classe ou dando “butinada”, fizeste história no esporte “bretão” de Campina Grande. Tua história pelos campos de futebol inspirou um escritor que colocou um pouco dela num livro que carrega como título, o nome do time que fundaste: “Bola de Ouro, espinhos e raízes”.
Hoje trago um pouco deste teu lado atleta, busquei uma forma de expressar nestas linhas aquilo que emites na voz e nos gestos. Guardei estas histórias, histórias duras, é bem verdade, mas que ficaram lá dentro das quatro linhas. Apesar da rudeza ou dureza delas, mas em tua trajetória só colecionaste amigos, estes, e outros mais que contigo lutavam pelo poder de uma esfera de couro. Quero te dizer meu pai, que tenho orgulho do senhor, que por onde passava em Campina e mencionava teu nome, sentia respeito e admiração. E mais ainda, por ser um poderoso e valente Zagueiro que defendia com dignidade e honestidade o pão que nos alimentava nunca deixando tua área, tua família desguarnecida. Estas linhas agora ficam como um pouco de teus registros os quais adicionarei com muito carinho as:
Histórias da minha vida
Forrest Guega – “o contador de histórias”.
Numa oportunidade escrevi algo sobre o vocabulário de meu pai. Trazia algumas expressões usadas pelo mesmo, as quais, sempre recheiam suas histórias. Pai, meu pai, é na verdade um contador de histórias, vibra, sorri, fica sério, faz trejeitos no rosto, arregala os olhos, coloca o dedo em riste, tudo isto para dar entonação, além de tentar colocar os ouvintes dentro de suas histórias. Sua forma de falar e expressar, é um número a parte. Então, como um apreciador de relatos, quando tenho chance não perco a oportunidade de parar para ouvi-lo e também gracejar com suas façanhas e seu vocabulário. Daí decidi hoje trazer algumas de suas peripécias, especialmente quando jogava futebol na posição de zagueiro central, o famoso camisa número três que ele gosta de chamar de: Bequi Centrá ou Centre Ralfi (seria Centre Ralff).
Sali “o fenômeno”.
Por motivos que até hoje não se sabe, mas que deixou um profundo sentimento de aversão, depois de defender as cores alvinegras do Treze, o Galo da Borborema, pai foi contratado pelo também tradicional Ipiranga Futebol Clube, adversário do clube galista. Defendendo as cores alvirrubras da equipe do canal, o zagueiro central aguardava com ansiedade a partida contra seu ex-clube, era uma espécie de desforra. Do lado de lá, reforçando o plantel, o Treze trouxe um atacante de renome com passagem pelos principais estados do Nordeste e que chegava a Campina Grande com fama de goleador. Tratava-se do centroavante de nome Sales, a quem meu pai fantasticamente chamava de:
Corria a boca miúda na cidade que o Treze tinha trazido um tal de “Sali”, um atacante que diziam que ia encher a defesa do time do Ipiranga de gols. Pois bem, a partida aconteceu num dia de domingo, mal o apito foi trilado e lançaram uma bola para o atacante do Treze em cima da defesa do Ipiranga. A bola após viajar pelo alto quicou na intermediária e veio cair próximo ao zagueiro, que como todo bom defensor correu para se antecipar ao lance. Quando a pelota chegou a meia altura, mais ou menos na linha do tórax, “Sali” partiu e mergulhou de cabeça para tentar desviar a esfera da linha do zagueiro. O detalhe é que ele não esperava com o que estaria por vir. O beque firmou-se numa perna e com a outra como se fosse uma raquete, girou e rebateu o balão de couro, literalmente deu uma raquetada no rosto da bola toda a força. “Sali” vendo um pé indo em direção ao seu rosto, imediatamente, no meio do caminho mudou sua trajetória, abaixou-se e passou pelo único local que sobrava, passou por debaixo das pernas do zagueiro indo cair depois de suas costas. Um meio campista da equipe do Galo gritou para Genival:
- Você ta ficando louco! Quase arranca a cabeça do outro.
- Achou Ruin! Retrucou o zagueiro. Escuta aqui, se achou ruim venha pra cá que eu piso no seu “gaiguelo” (goela), e se ele vier de novo vou pisar também. E deixe de falar bestera!
A partida continuou e o centroavante sensação não se aproximou mais da área, fugiu literalmente da presença do Beque Central.
O garoto
O racha se desenrolava num campo de pelada próximo. Genival jogava de um lado, e do outro, seu filho mais velho, Zezinho. Tudo corria muito bem, cada equipe tentava chegar ao gol, mas sem sucesso. Porém, em dado momento, o garoto Zezinho resolveu decidir a parada. Pegou a pelota e saiu driblando um e outro, na linguagem futebolística diria que saiu costurando o time adversário, mas, ao chegar na entrada da área deu de cara com o último homem da defesa, seu pai que sem esperar o próximo gingado do garoto, estirou a perna e passou-lhe o rapa, deu-lhe uma traulitada, a velha e certeira rasteira no meio das pernas fazendo o menino perder o controle da bola e cair prum lado agonizando agarrado nas canelas. O viril zagueiro pegou a bola e saiu jogado. Sob olhares atônitos de quem assistia e dos atletas do time adversário, no meio do entrevero alguém gritou: “Ele faz isso com o filho, imagine com os outros!” O anônimo mal terminara a frase e escutou de volta: “Aqui quem manda sou eu, e também num sô muito chegado a caqueado” (ginga)!
Jogo contra o G. O.
Certa vez jogando contra o time do Grupamento de Obuses, uma unidade do Exército, o zagueiro jogou tanta bola, que ao final um dos oficiais o procurou para dizer:
- Garoto, o futebol que você joga num é pra aqui, não. Um futebol como este é para ser jogado no sul do país. Tá todo mundo encantado com o seu estilo de jogo.
Acredito que neste jogo pai resolveu deixar de lado a caixa de ferramentas e saiu exibindo classe e categoria, arrancando elogios e olhares observadores dos oficiais do Exército.
Teónilo ou “Tionilo”
Um dos mais viris zagueiros que já pisara na Paraíba, um tal de “Teonilo”, o homem era de uma crueldade tal quando jogava bola, que os times pernambucanos o mandaram embora. Foi expulso de Pernambuco. Então, esta figura um dia cruzou seu caminho com o jovem Genival jogando lado a lado. Certa vez, após terminar o primeiro tempo, o experiente defensor chamou o jovem zagueiro e deu-lhe o seguinte “conselho”:
- Garoto, você joga muita bola, mas tem um grande defeito.
Sem imaginar o que era, Genival ficou aguardando a continuação.
- Quando levar uma pancada. Disse o zagueiro mais velho. Não espere o adversário voltar para descontar. Pegue o primeiro da frente e desça-lhe a butina. Rasgue logo o primeiro que passar, e quando perguntar porque você bateu, diga que vá tomar as dores com seu companheiro que lhe deu uma.
Dito e feito. Iniciou o segundo tempo e numa bola na entrada da área ao sair para cortar a jogada, Genival sentiu uma “triscada” na perna, virou para trás e não tinha mais ninguém. Na seqüência da jogada, um adversário qualquer tentava dar continuidade ao ataque, quando foi literalmente riscado na altura da coxa. A bola foi rebatida e a “vítima” veio tomar satisfação com o zagueiro que sem nenhum remorso disse: “Vá tomar satisfação com seu companheiro, aquele ali. Olhe o que fez na minha perna”. Daí em diante, Genival fez escola.
Nequinho/Nequim.
Não sei o seu nome original, acredito que devia ser Manoel, talvez pela estatura colocaram-lhe este pseudo. Jogava no ataque, mas precisamente na ponta. Ágil, rápido, um velocista que depois de empurrar a bola na frente do adversário, segundo meu pai, só era parado no “pau”. Num dos confrontos futebolísticos domingueiros, mais uma vez o Treze seria o adversário do time do zagueiro Genival. Do outro lado, Nequinho, famoso pela velocidade, era o “bicho”. Marcado de cima, não davam-lhe sossego, mas, mesmo assim, levava perigo para a defensiva contrária. Em dado momento da partida surgiu uma próximo ao meio campo, os atacantes alvinegros se posicionaram, e Nequim, oportunista, caiu pelo meio sendo marcado pelo beque Genival. Então, o encarregado da cobrança olhou e lançou a bola em direção a Nequinho, metros a frente dele e de seu marcador. Quando o ponta pensou em arrancar na velocidade, sentiu que um de seus pés ficara preso no chão. A bola vindo em sua direção e nada dele conseguir sair do lugar. Quando tentou mais uma vez, eis que o zagueiro jogou o braço a sua frente, dando a impressão de que queria correr mas estava sendo puxado. Para quem olhava de fora, como também o árbitro a impressão era de que o defensor estava sendo agarrado pelo uniforme. Mas, era o contrário. O zagueiro metera um pisão no pé do atacante de forma tal que o mesmo ficou imóvel com o pé preso debaixo do dele. A bola passou chegou até a área e foi recolhida pelo goleiro. Em seguida, a marcação fora desfeita e Nequinho saiu mancando e esbravejando palavras tipo: “fdp, fdp, você é um fdp”. Bem próximo dali, outro adversário que atendia pela alcunha de Biu Pu.. Preta, gritou: “Você é muito malvado, seu fdp”. Sem deixar se abalar o defensor devolveu: “Aqui é assim! Pensa que é só chegar e passar! É não! Vai comer medido”! Vocês vão ver o cancão piar agora.
Biu Pernão
Nome de batismo, Severino. Recebeu este apelido pela estatura, quase dois metros de altura e das longas pernas. Jogava na lateral-esquerda, detentor de muita classe e tranquilidade dentro das quatro linhas. Seu Biu, quando o conheci não jogava mais futebol, casado, um homem crente, íntegro, foi um exemplo na minha infância/juventude. Certa vez ao encontrá-lo perguntei se alguma vez jogara contra meu pai. Ele disse:
“Seu pai jogava muita bola, quando era classe sabia fazer. Mas quando queria bater era muito bruto. Seu pai era muito bruto! Uma vez jogando contra seu time, peguei uma bola pelo lado esquerdo de campo e avancei em direção ao ataque correndo próximo a linha lateral. Quando me dei conta vi que Seu Genival saíra para obstruir a jogada. Porém, como sabia que ele não dava viagem perdida, me preparei: seria eu ou a bola. No momento que se aproximou, dei um tapa na bola dum lado e corri pelo outro. Mas qual nada, vendo ele que o drible o tirara do alcance da esfera, ele partiu pra cima de mim. Literalmente tive que fazer um arrodeio por fora do campo para fugir da butinada que vinha em minha direção, mas, apesar de todo esforço, sua chuteira ainda riscou a parte posterior de minha coxa. A bola adiantou e perdi o lance. A partir dali não ousei mais levar o jogo para o lado onde atuava.”
Genivá, Ferrin ou Danilo, assim eras conhecido nas hostes futebolísticas da Rainha da Borborema. Zagueiro de muito vigor, muita força e determinação que fazia tremer o mais temido atacante adversário, jogando classe ou dando “butinada”, fizeste história no esporte “bretão” de Campina Grande. Tua história pelos campos de futebol inspirou um escritor que colocou um pouco dela num livro que carrega como título, o nome do time que fundaste: “Bola de Ouro, espinhos e raízes”.
Hoje trago um pouco deste teu lado atleta, busquei uma forma de expressar nestas linhas aquilo que emites na voz e nos gestos. Guardei estas histórias, histórias duras, é bem verdade, mas que ficaram lá dentro das quatro linhas. Apesar da rudeza ou dureza delas, mas em tua trajetória só colecionaste amigos, estes, e outros mais que contigo lutavam pelo poder de uma esfera de couro. Quero te dizer meu pai, que tenho orgulho do senhor, que por onde passava em Campina e mencionava teu nome, sentia respeito e admiração. E mais ainda, por ser um poderoso e valente Zagueiro que defendia com dignidade e honestidade o pão que nos alimentava nunca deixando tua área, tua família desguarnecida. Estas linhas agora ficam como um pouco de teus registros os quais adicionarei com muito carinho as:
Histórias da minha vida
Forrest Guega – “o contador de histórias”.
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